A história do meu match parte 2: CaRMS – da aplicação ao resultado por Olívia Haun

Oi pessoal! Nesse outro post a Olivia conta a experiência dela aplicando pro CaRMS, que é o processo de seleção pra residência médica aqui no Canadá. Não é um processo nada fácil, dá bastante trabalho, e aqui a Olívia compartilha conosco como foi a jornada dela. Acho legal mostrar pra vocês que não basta somente fazer as provas e ter uma boa nota. Tem muitas outras coisas envolvidas na aplicação que tornam um candidato mais apropriado pra vaga.

Enfim, espero que o relato da Olívia ajude a quem está planejando iniciar esse processo!

“We are pleased to inform you that you have been matched to:

University of Toronto / Internal Medicine / Toronto / IMG stream

Your matched program will contact you within 30 days.”

Na primeira parte da história do meu match, falei sobre a minha experiência profissional e de todo o processo de preparação para as provas do MCC. Nessa segunda parte, vou falar sobre a aplicação para o CaRMS. 

É importante ressaltar mais um vez que tudo que eu escrevi aqui representa a minha experiência, ou reflete a minha opinião pessoal. É sempre recomendável checar sites oficiais durante o processo, e o meu texto não tem a menor pretensão de substituir isso. 

CaRMS 

É importante ler com antecedência sobre todos os programas que você pretende aplicar, pois existem várias particularidades em cada um deles. A maioria das vagas pra IMG estão em Ontário. Tanto Quebec como Alberta, no ano que apliquei, exigiam que o candidato morasse lá. Alguns programas exigem o Casper, que é uma prova que faz um screening do perfil do candidato através do seu julgamento de situações. BC exige o CAP MMI, que são “Multiple Mini Interviews”. Pra fazer o CAP você precisa aplicar com sua nota do MCCQE1 e seu currículo. Eu apliquei e fui chamada. O CAP é no formato de mini entrevistas, com diferentes estações. Eu me dei muito mal, mas foi bom pra eu me dar conta de que precisava me preparar bem para as entrevistas. Minha nota no CAP foi muito ruim, abaixo da média, e me tirou qualquer chance de conseguir algo em BC. Então me concentrei em Ontário mesmo. 

Como falei acima, é muito importante ler as exigências de cada programa que você pretende aplicar, para poder moldar cada aplicação de acordo com as exigências particulares de cada um. Abaixo vou “dar uma geral” no que a maioria dos programas que eu apliquei pediam.

Eu apliquei pra 10 programas diferentes, 4 em anestesia e 6 em Internal Medicine. Você pode aplicar pra quantos programas quiser, mas sua inscrição no Carms te dá direito a um número limitado de programas, e você paga extra por cada programa a mais que quiser aplicar. Importante ressaltar que os programas são proibidos de perguntar aos candidatos sobre suas preferências (tanto em relação à especialidade como aos programas). Fora medicina da família, que tem um número razoável de vagas, a quantidade de vagas para IMG é muito pequena, então é melhor aplicar para a maior quantidade de programas possível.

  • Cartas de recomendação: os programas que apliquei pediam três. Todas as minhas três cartas foram escritas por preceptores do meu fellow no Sunnybrook. Solicitei minhas cartas a staffs que eu sabia que gostavam do meu trabalho e que, ao mesmo tempo, eram pessoas de grande influência no meio acadêmico. Como eu apliquei pra duas especialidades diferentes, eu pedi duas cartas diferentes para cada, porque quanto mais específica a carta for, melhor. As cartas são enviadas diretamente ao CaRMS, então eu não vi o conteúdo delas. Mas eu acho que as minhas foram bem fortes, o que certamente teve um peso grande na minha aprovação.
  • Personal statement: eu cheguei a pedir ajuda a uma staff do meu fellow do Sunnybrook pra revisar o meu personal statement, mas no fim não consegui concluir a tempo dela revisar e mandei da minha cabeça mesmo. Tem vários exemplos de personal statements na internet. Eu li vários deles pra ter ideia de como escrever, sempre atenta a responder especificamente o que cada programa solicitava. Como cada programa tem exigências distintas, o ideal é fazer uma carta diferente pra cada um. Se eu tivesse que fazer o mesmo processo de novo, eu pediria pra mais pessoas revisarem minhas cartas. Por falta de tempo (é realmente difícil fazer isso com um bebê aprendendo a andar e te exigindo atenção o tempo inteiro, como foi o meu caso), acabei só revisando o inglês mesmo. Meu marido e minha mãe leram minhas cartas e opinaram, mas acho que não conta muito!
  • Medical Student Performance Evaluation (MSPE): a maioria dos programas pede essa carta. É um documento assinado pelo coordenador do curso de medicina sobre o seu desempenho durante a faculdade. Ela precisa ser bastante detalhada. Na minha faculdade, nunca ninguém tinha pedido isso, e eu tive que mandar vários modelos pra eles fazerem a minha. Lembre-se disso, porque pode levar bastante tempo pra conseguir, a depender da boa vontade das pessoas da sua faculdade. 
  • IELTS: exigência de no mínimo 7 em cada área do IELTS Academic. Importante fazer com uma certa antecedência, porque se você perder, dá tempo de refazer. Eu tive que fazer dois, porque tirei 6.5 no writing do primeiro que eu fiz (apesar de que pedi revisão de prova e eles corrigiram minha nota do writing pra 7, e no fim fiquei com dois IELTS atendendo à exigência dos programas). 
  • Currículo: eu pedi ajuda a um residente que tinha sido bem sucedido no processo pra me dar dicas de como apresentar meu currículo da melhor forma possível. Também contratei profissional pra revisão do inglês. Não é só o conteúdo do seu currículo que é importante, mas também a forma como você apresenta as informações. Em relação ao conteúdo, leva tempo pra preencher. Eu falei acima da minha experiência prévia pra dar uma ideia pra vocês sobre o que compôs o meu currículo. Além das minhas residências prévias, fellowship, pesquisa, artigos publicados, eu também inclui dois capítulos de livro que eu escrevi no Brasil e trabalho voluntário. Minha opinião pessoal sobre o currículo: lembre-se que você está aplicando para uma vaga de residência, não para chefe do serviço. Seu currículo não precisa ser impecável. Você não precisa ter publicado um artigo no NEJM, Lancet ou JAMA. Aliás, se você tiver publicação no NEJM, melhor aplicar pra clinical associate ou alguma posição acadêmica, e não pra residência médica. Outro fator muito importante é que os programas normalmente pedem pra o candidato justificar períodos em que não exerceu medicina, e tem programas que não chamam para a entrevista pessoas com longos períodos sem praticar. No meu caso, eu estava sem praticar há menos de um ano, e estava de licença maternidade (meu fellowship acabou no mês que minha filha nasceu), o que é perfeitamente justificável. 
  • Entrevistas: dos 10 programas que apliquei, 4 me chamaram pra entrevista. Foram 2 em anestesia (UofT e McMaster) e 2 em internal medicine (UofT e Queen’s). A entrevista da McMaster é no formato de MMI (multiple mini interviews), e tem algumas particularidades. É preciso se preparar muito bem para as entrevistas, de acordo com seu formato. Pra começar, eu me inscrevi numa sessão sobre entrevista pra residência do Health Force Ontario (HFO). O HFO é um programa do governo que, entre outras coisas, dá consultoria para IMGs e outros profissionais de saúde que precisam se encaixar no mercado de trabalho. A sessão que eu assisti foi ministrada por Irina Edilova. Eu gostei muito dela. Depois da sessão eu mandei um e-mail pra ela e ela me mandou uma lista de perguntas frequentes em entrevistas, e eu treinei cada uma dessas perguntas. Pensar com antecedência sobre exemplos de sua prática pra ilustrar suas respostas ajuda absurdamente na hora da entrevista. O HFO também oferece simulados de entrevistas, e eles te dão feedback sobre o seu desempenho e dicas de como melhorar. Eles tem vários consultores pra isso. Eu não gostei muito do meu, mas conheço gente que se deu muito bem com outros consultores. Todos esses serviços do HFO são gratuitos. Também pedi ajuda a uma residente que conheci durante o meu fellowship, e ela me deu dicas valiosas. Um dos principais motivos da entrevista é identificar “red flags”, que seriam sinais de que aquele candidato não funcionaria bem naquele serviço. Um exemplo de uma “red flag” seria, ao ser perguntado sobre um erro que você cometeu, você não mostrar que aprendeu com a ocasião. Além disso, a entrevista é a sua chance de “se vender”, então falar com paixão e entusiasmo e manter as pessoas interessadas na sua história são coisas que fazem a diferença. A realidade, pra mim, é que eu queria fazer residência por ser um meio de conseguir me tornar médica no Canadá. E eu essencialmente queria ficar no Canadá por motivos pessoais. Mas isso não vende! Então eu me preparei pra falar como me tornar residente daquele serviço ia me tornar uma profissional melhor, e também sobre as contribuições que eu poderia dar. Outra coisa que achei importante foi revisar sobre as CanMEDS roles e pensar em exemplos da minha prática pra ilustrar cada uma delas. Tem uns módulos da Queen’s University sobre as CanMEDS roles que são bem didáticos, pra quem quiser se familiarizar melhor. Um último artifício que usei foi pedir ajuda para um dos staffs do meu fellow. Essas pessoas participam de painéis de entrevistas de residência todos os anos! Ele me fez umas perguntas usuais e depois me deu dicas importantes. Eu achei que pedir ajuda a pessoas que eu conhecia seria muito mais valioso do que pagar uma consultoria pra isso, e com certeza, no meu caso, foi uma decisão acertada. Por fim, vou dizer o óbvio: é muito importante saber falar muito bem sobre qualquer informação que constar na sua aplicação, principalmente no seu currículo. Então se tem alguma pesquisa que você fez há muitos anos e os detalhes não estão mais frescos na sua cabeça, revise bem antes da sua entrevista.
  • Conhecendo os programas: nos dias das entrevistas, todos os programas de residência costumam organizar atividades para que os candidatos conheçam os programas. Essas atividades incluem uma apresentação do diretor do programa, visita ao hospital, almoço, oportunidade de interagir com os residentes e um evento social. Lógico que esse ano deve ser diferente, por conta da pandemia, mas imagino que eles vão fazer as atividades de forma virtual. 
  • Escolhendo os programas: após as entrevistas, os programas criam o ranking de preferência de candidatos, e os candidatos fazem o mesmo com os programas. O match é sempre a melhor combinação possível proveniente dessas listas. Por conta da forma como o ranking é desenhado, você não precisa escolher baseado no que você tem mais chances. Você deve, de fato, escolher de acordo com a sua preferência. 

Depois disso, é só segurar os nervos e esperar pelo “match day”. O resultado sai pontualmente ao meio dia, on-line, no site do CaRMS, e só o candidato tem acesso a ele. Independente do resultado, não se esqueça de enviar e-mails agradecendo a todas as pessoas que te ajudaram no caminho. 

Quem já teve a felicidade de ler seu nome numa lista (de vestibular, de residência médica, de concurso etc) sabe a explosão de sentimentos que isso traz. Naquele dia, eu gelei uma garrafa de um bom espumante, coloquei minha filha pra dormir, e comemorei como se não houvesse amanhã. Entrou, sem dúvida, para a lista dos melhores momentos da minha vida!

Essa é a história do meu match. Espero que, ao compartilhar a minha experiência, eu consiga ajudar outras pessoas que estão nesse processo árduo, mas não impossível, de se tornar médico residente no Canadá. Boa sorte! 

3 comentários em “A história do meu match parte 2: CaRMS – da aplicação ao resultado por Olívia Haun

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  1. Oi, Olivia. Tudo bem?
    Gostaria de perguntar sobre o voluntariado. Você realizou durante a graduação ou residência? Falam que isso é muito importante no currículo, pois chama a atenção de quem está no Canadá. Desde já, grata!
    Abraços!

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  2. Ola, Parabéns pela conquista! gostaria de saber como fez com relação ao visto de residencia permanente! parece um passo bem importante no inicio do processo que me traz muitas duvidas, pois quando faço testes na internet não sou compatível para me mudar.

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