A história do meu match parte 1: da minha experiência no Brasil e fellowship no Canadá às provas do MCC – por Olívia Haun

Olá pessoal! Nossa, já nem sei mais quanto tempo faz que não posto nada por aqui. Perdoem meu sumiço, mas nesse último ano acabei priorizando outras coisas. O que por um lado foi bom, pois agora terei mais coisas pra contar por aqui.

Mas hoje o post é especial, porque ele foi escrito pela querida Olívia Haun, médica brasileira que veio pro Canadá fazer um fellow, fez as provas de validação do diploma e foi aceita para um programa de residência médica. Aqui ela vai contar como foi a trajetoria dela desde o Brasil até a preparação pras provas. Num outro post ela conta como foi aplicar pro CaRMS, o que não é um processo nada fácil…

Espero que a experiencia dela ajude e inspire vocês!

“We are pleased to inform you that you have been matched to:

University of Toronto / Internal Medicine / Toronto / IMG stream

Your matched program will contact you within 30 days.”

Em 3 de março de 2020, quase 4 anos após a minha chegada em solos canadenses, recebi a notícia de que o meu esforço tinha chegado ao fim com a melhor recompensa possível. Eu estava pronta para (re)começar! Virar residente no Canadá não é nada fácil para médicos graduados fora do país, mas depois da minha experiência posso dizer com propriedade que é possível. 

Vou compartilhar com vocês o caminho que percorri até a minha aprovação. Dividi o texto em duas partes, sendo a primeira sobre a minha experiência antes de aplicar para a residência e todo o processo de preparação para as provas do MCC. Na segunda parte, falo sobre o CaRMS e a aplicação em si. 

É importante ressaltar que tudo que eu escrevi aqui representa a minha experiência, ou reflete a minha opinião pessoal. É sempre recomendável checar sites oficiais durante o processo, e o meu texto não tem a menor pretensão de substituir isso. 

Além disso, refazer a residência não é o único caminho pra obter licença médica no Canadá. Foi a caminho que escolhi para mim. Ao final de três anos de residência, eu terei a minha licença independente, e aí daqui ninguém me tira! 

Então vamos ao que importa! Vou organizar as etapas de forma cronológica, começando com a minha experiência no Brasil, antes mesmo da minha decisão de me mudar para o Canadá. 

Experiência no Brasil

Me formei no interior da Bahia, na Universidade Estadual de Santa Cruz, em 2010. Fiz residência em Clínica Médica pelo SUS-PE, no Hospital Barão de Lucena, em Recife, de 2010 a 2012. Depois fui para São Paulo, onde fiz residência de Terapia Intensiva pela UNIFESP, de 2012 a 2014. Durante a minha residência em São Paulo, fiz o Mestrado Profissional Associado à Residência Médica (MEPAREM) da UNIFESP, o que me rendeu uma publicação como primeira autora em uma revista internacional de Medicina Intensiva. Também durante a residência, fiz dois meses de eletiva em um hospital em Paris, França, e isso me rendeu uma segunda publicação como co-autora de um trabalho que participei enquanto estava lá. Trabalhei por um ano como intensivista em São Paulo, e então vim para o Canadá fazer um fellow clínico em Terapia Intensiva.

Fellowship Clínico em Toronto / Permanent Residency / experiência em pesquisa

Logo depois de terminar a minha residência em São Paulo, resolvi fazer um fellowship internacional e escolhi o Canadá por conta de vários fatores, como a facilidade de imigração e a língua (os dois meses arranhando no francês tinham me traumatizado, e eu queria ter uma experiência internacional com um idioma que eu me sentia mais confortável). Para aplicar para o fellowship, eu simplesmente procurei no Google os programas de fellow clínico internacional em Terapia Intensiva em Toronto e mandei e-mail. Juntei os documentos necessários e apliquei. Depois de uns dias recebi convite pra entrevista (apliquei pra dois programas, e os dois me entrevistaram por telefone). Pouco depois recebi a proposta de um dos serviços e comecei a arrumar a papelada para a mudança. Um dos documentos que eles pediram foi o “reconhecimento” do diploma médico pelo Physicians Apply, o que depois seria necessário para a inscrição para as provas do MCC (as provas não são necessárias para a aplicação para o fellow internacional, mas fazem parte da aplicação para a residência médica). Vim inicialmente com um Work Permit vinculado ao meu fellowship, que era remunerado, e meu marido recebeu um work permit aberto. Fiz meu fellow no Sunnybrook, pela Universidade de Toronto. Comecei em Maio de 2016 e terminei em Dezembro de 2018 (o plano inicial eram dois anos, mas estendi alguns meses pra fazer pesquisa). Meu fellowship no Sunnybrook me rendeu excelentes cartas de recomendação para a minha aplicação para a residência. 

Um ano após o fellowship, eu já tinha pontos suficientes para aplicar para o PR (Permanent Residency) pelo programa Canadian Experience Class. O trabalho no fellow conta como experiência canadense na sua área e rende muitos pontos para a imigração. Assim que apliquei, fui logo chamada e em pouco tempo me tornei PR (o que é pré-requisito para aplicar para a residência médica). 

No último ano do meu fellow, eu engravidei da minha filha, e por conta de ter tido trabalho de parto prematuro, fiquei impedida de dar plantão. Eu já estava envolvida com pesquisa, e consegui dar continuidade ao fellow fazendo apenas isso. Essa minha experiência aqui me rendeu mais uma publicação como primeira autora. 

Preparação para o MCCQE1 

Cheguei a tentar estudar para a prova durante o fellowship, mas pra mim não foi possível. O fellow de Terapia Intensiva do Sunnybrook é bem pesado e eu não tive energia pra fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Estudei durante aproximadamente 5 meses, durante a minha licença maternidade. Não foi nada fácil estudar com um bebê pequeno em casa, então eu estipulei metas que se encaixavam na minha realidade e no meu estilo de estudo. 

Pra me preparar, eu comprei o Toronto Notes e o banco de questões do CanadaqBank. Li umas três páginas do Toronto Notes só pra descobrir que aquele estilo de livro não era pra mim. Então resolvi ficar só respondendo questões mesmo. Minha meta eram 50 questões por dia, mas eu me permiti fazer apenas 30 durante vários dias. Dá pra aprender bastante com as questões, já que elas são todas comentadas, então não usei nenhum livro texto. Eu respondi todas as questões do qBank (exceto as de internal medicine, que eu fiz menos da metade). Resolvi priorizar pediatria, GO, preventiva, cirurgia e psiquiatria, porque proporcionalmente acabam caindo mais do que internal medicine, e o conteúdo de internal medicine é infinito. Ah! Um conselho de amigo: eu não perderia tempo respondendo a parte de Clinical Decision Making do qbank. Isso me atrapalhou, porque além de não ter nada a ver com a prova de verdade, eles me confundiram sobre como responder a prova real (ainda bem que descobri isso durante o simulado do MCC, e não na prova de verdade! Falo mais sobre isso logo abaixo). 

Quanto à escolha do banco de questões, muita gente prefere o uworld. Eu fui de qbank mesmo porque era mais barato, e acho que faz o mesmo efeito. Nenhum desses bancos se parece com a prova do MCC, então o objetivo é apenas revisar conteúdo. Acho que o qbank cumpre bem esse papel (como o uworld também certamente cumpre). 

Quando eu terminei de responder as questões do qbank, faltando cerca de um mês para a prova, fiz o que acho que mais me ajudou na preparação: comprei todas as questões vendidas no site do MCC (custa um rim, mas vale a pena), respondi, depois revisei uma a uma no UptoDate. As questões vendidas pelo MCC são no mesmo estilo da prova de verdade. Elas não se repetem, mas os assuntos sim. Então essa revisão no UptoDate me ajudou bastante. Fiz uma revisão bem rápida e focada basicamente em diagnóstico e tratamento. Uma outra coisa que me ajudou bastante ao responder essas questões do MCC, é que consegui entender como funciona a parte aberta da prova. Um resumo rápido pra vocês: se a questão falar que você pode escolher até seis itens, escolha seis itens. Por exemplo, se eles perguntarem quais os exames que você solicitaria para um paciente com dor torácica e falar que você pode escolher até seis itens, a resposta certa certamente será ECG, mas você não vai perder ponto se pedir hemograma, creatinina, eletrólitos, troponina e raio X de tórax. Você só vai perder ponto se fizer algo que cause mal ao paciente. Então marque (ou escreva) o máximo que der, pois isso vai aumentar sua chance de dar a resposta que eles estão procurando. 

Durante o mês final antes da prova, eu também revisei ética. Usei basicamente o site do CMPA, mas minha pontuação nessa parte foi abaixo da média. Eu compensei nas outras partes. 

Meu score no MCCQE1 foi 273, que é mais de um desvio padrão acima da média.

Preparação para o NAC OSCE

Levei cerca de um mês me preparando. Treinava casos quase todos os dias com duas colegas que também fariam a prova. Usei o livro NAC OSCE A comprehensive review (disponível online) e o Master the NAC. Basicamente fizemos todos os casos pelo menos uma vez. Também usamos o First Aid for Step 2 CS, porque uma das minhas colegas ia fazer a prova dos EUA também. Mas eu acho que fazer esse livro até atrapalha para o prova canadense, porque o formato da prova americana é bem diferente. O importante para a prova canadense é treinar história e exame físico focados no problema (enquanto na americana eles querem tudo muito abrangente, e te dão muito mais tempo pra isso). Enquanto treinava, eu fiquei bastante preocupada com o tempo, mas na hora da prova o tempo é suficiente. 

Eu fiz o curso preparatório do Ontario IMG, mas não achei que ajudou. Acho que pode até ser útil pra alguém que acabou de sair da faculdade e não tem prática clínica, mas pra alguém que já tava colhendo histórias e examinando pacientes há quase 10 anos, foi perda de tempo e dinheiro. A única coisa que achei que ajudou do curso foram os dois simulados deles que eu fiz. Acho que vale a pena fazer pelo menos um simulado antes da prova. Eu gostei do simulado do Ontario IMG, mas com algumas ressalvas: na hora da prova de verdade, os atores são treinados pra fazer o tempo ser suficiente. Isso não foi verdade nos simulados que fiz, onde tempo foi um problema em todas as estações. Além disso, eles contam os pontos de uma forma muito sem noção. Minhas notas nos simulados foram muito ruins, e não refletiram meu desempenho (na minha percepção). Mas acho que ajudou pra treinar o formato da prova. 

O NAC não é uma prova difícil, na minha opinião. É muito mais sobre controlar o tempo e os nervos. 

Meu score foi 431, mais de um desvio padrão acima da média. 

Depois de feitas as provas, a próxima etapa é aplicar para os programas de residência através do CaRMS. Falo sobre isso na parte 2 da história do meu match. 

Um comentário em “A história do meu match parte 1: da minha experiência no Brasil e fellowship no Canadá às provas do MCC – por Olívia Haun

Adicione o seu

  1. Oiii, Olivia. Desculpa a pergunta, mas é algo que me preocupa. Você teve sua filha com quantos anos? Porque o meu medo é ter filhos muito tarde, fazendo residência aqui no Brasil e depois no Canadá. Desde já, obrigada. Desculpa a pergunta aleatória.
    Abraços!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: